Desafio de “Além do Tempo” é manter a audiência com a história da nova fase

A novela “Além do Tempo” encerra sua primeira parte com saldo positivo. A trama de época não trouxe nada de novo além do bom e velho folhetim clássico, com todos os ingredientes indispensáveis para os amantes do gênero. Entenda uma história de amor, com mocinhos virtuosos e vilões terríveis, em meio a segredos do passado e muitos obstáculos para a felicidade. Entretanto, uma trama muito bem moldada e conduzida pela ótima carpintaria da autora Elizabeth Jhin e sua equipe de roteiristas.
A identificação do telespectador com os dramas dos personagens foi despertada através dos sentimentos humanos mais básicos, como a torcida pelo casal romântico, o ódio pelos vilões, o desejo dos maus serem punidos, a idealização do amor romântico e da felicidade eterna. Essa premissa continua na segunda fase da trama, quando os personagens se reencontram na vida atual para expiar falhas do passado e, assim, dão início a praticamente uma nova história. Este é o grande diferencial e ineditismo de “Além do Tempo” – e seu maior risco.
Por ser uma novela dividida em duas (ou duas novelas em uma) – com os mesmos personagens em épocas diferentes e em outras situações, classes sociais e relações familiares – o desafio é fazer o público enterrar a primeira fase (de época) e embarcar na nova história (contemporânea). O trunfo da autora é ter a torcida do telespectador, que já conhece os personagens e o passado deles. Agora, resta prosseguir com a nova história, que promete seguir a mesma linha folhetinesca da primeira parte.
As qualidades de “Além do Tempo” estiveram não apenas na trama cativante, mas também na ótima direção (equipe de Rogério Gomes e Pedro Vasconcelos), na produção requintada e no elenco, com destaque às interpretações de Irene Ravache (Condessa Vitória), Ana Beatriz Nogueira (Emília), Júlia Lemmertz(Dorotéia), Paolla Oliveira (Melissa), Nívea Maria (Zilda), Luiz Carlos Vasconcelos (Bento), Luís Mello (Mássimo), Inês Peixoto (Salomé) e Dani Barros (Severa).
Entretanto, ressalta-se uma pequena falha de ordem cronológica: esta primeira parte da novela retratou o final do século 19, mas sem especificar o ano exato em que se passava a história, o que gerou uma certa confusão cronológica, já que a segunda parte foi vendida como ambientada 150 anos após a primeira e alguns dados históricos não batiam com o que foi apresentado – Maurício Stycer escreveu sobre isso em sua coluna, leia AQUI.
Outro problema foi uma pequena barriga (aquele momento de enrolação na história), muito provavelmente por esta primeira parte ter sido concebida para 70 capítulos, mas que acabou aumentada para 87. Nada que comprometesse o resultado final. Embora levemente “embarrigada”, “Além do Tempo” sempre apresentou ótimos ganchos entre os capítulos.
A despeito das pequenas falhas, vale destacar as excelentes duas últimas semanas, com as resoluções das tramas, conduzidas ao grande clímax de modo a provocar uma catarse final, com todos os segredos vindo à tona e os vilões punidos. Isso não seria possível sem o elenco afiado e a direção, com ótimas sequências envolvendo Alinne Moraes, Rafael Cardoso, Paolla Oliveira, Irene Ravache, Ana Beatriz Nogueira, Luiz Carlos Vasconcellos, Louise Cardoso, Júlia Lemmertz eNívea Maria. Reitero a ideia acima, de que a novela mexeu com os sentimentos mais básicos do ser humano: foi de lavar a alma!

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